domingo, 20 de fevereiro de 2011

Falando de Flamengo

Eu não me lembro quando virei Flamengo. Meus pais não gostam de futebol, não tenho irmão, meu avô era América. Mas lembro, já na escola, com uns oito anos, quando a tia Regina levou chaveiros dos times cariocas pra cada aluno escolher um. Escolhi o do Flamengo (tenho até hoje). Não sei também o porquê. Só consigo pensar que Deus me abençoou e me iluminou quando criança, e do nada colocou o Flamengo dentro de mim.

Fico pensando por que o Flamengo é o que é. O Flamenguista não tem hora de jogo (como os outros times). Tem dia de jogo. É um dia inteiro de programação. Lembro de um amigo tricolor que em um FlaxFlu nos ligou de casa às 15h e ele realmente conseguiu chegar a tempo no estádio e assistir ao jogo. Às 15h a gente já estava lá, e já tinha passado muito perrengue. Por essas e outras, acredito que o sentimento do Flamenguista seja diferente. Você passa um domingo inteiro em função de um jogo, que a torcida adversária passou apenas uma horinha se programando. Você enfrenta calor, multidão, transporte lotado, confusão, passa no total umas cinco horas em pé! Chega em casa exaurido, dolorido, suado, nojento. Com sorriso de orelha a orelha. É um amor diferente, extremo, de entrega total.

Resolvi escrever esse post pra tentar traduzir em palavras um sentimento relacionado a futebol, mas  como não seria possível, vou narrar uma experiência própria que diz por si só. Independente de sexo, acredito que a sensação que irei descrever logo abaixo não seja exclusivamente minha.

Fui pela primeira vez ao Maracanã somente em 2003 com meus amigos-irmãos Doca e Rafinha. Fomos de metrô, eu extremamente ansiosa, o vagão lotado, todos tensos e felizes, falando do jogo. Eu quietinha olhando (de baixo), pensando nesse mundo que estava prestes a descobrir. Ao saltar na Estácio, todos saindo ao mesmo tempo pra pegar a linha 2, vejo aquela multidão rubro-negra que já desce gritando “Meeeengooo”, batendo palma, cantando. Na hora fiquei toda arrepiada. Queria muito ser parte daquilo.

Chegando na estação do Maracanã, descemos a rampa da UERJ (não era clássico), e avistamos aquela multidão de vermelho e preto. Cara, eu queria muito ser parte daquilo. Enquanto eu descia a rampa meu coração batia muito forte. Pra entrar no estádio, aquela muvuca esmagada, todo mundo esperando grudado o momento de os policiais liberarem mais uma leva de torcedores pra entrar. O Doca e o Rafinha me escoltando na multidão com medo de eu ser esmagada ou morrer sem ar (lembrem-se que com 1,50m fico pelo menos 20cm abaixo de todos a minha volta), me passando as instruções: “cuidado com o ingresso”, “fica ligada em mim”, “tá tudo bem?”, “qualquer coisa segura na gente”, “segura o ingresso”, “fica ligada que vai liberar”.

Minha mãe nos obrigou a ir de arquibancada branca (receosa da minha morte). Lembro de nós sentados, eu de frente pra Raça, repetindo pra eles “quero ir pra lá!”. Eles só me diziam que não, “prometemos pra tia Lili que ficaríamos aqui, vamos ficar.”. Como toda mulher, em pouco tempo de insistência e chantagem, estávamos na verde.

Depois desse dia, logicamente, passei a ser freqüentadora. Não existe nada mais lindo do que a barulheira dos gritos uníssonos, dos olhos dos torcedores fixados no campo, mesmo vazio antes da entrada, enquanto gritam com toda a força músicas de incentivo, hinos, palavrões. E o cheiro de fumaça dos rojões? O aperto, as horas em pé, procurar um lugar em cima de uma cadeira (pra mim faz muita diferença). Como eu passei tanto tempo da minha vida sem conhecer aquilo?

De repente, todos no estádio param de batucar, cantar e gritar. Param o que estiverem fazendo e estendem as mãos para frente tremendo. E como em um mantra, entoam um “meeeeeengo....”, num tom mais baixo. Ao repetir “meeeengo....”, o Maracanã inteiro já está em uma outra sintonia, aguardando a entrada de seus guerreiros, dos homens que nos fizeram passar horas de expectativa e cansaço, que serão aclamados, naquele momento, como em nenhum outro lugar. “meeeengo”.... lembro daqueles milhares de braços estendidos ao meu redor, grande parte deles arrepiados. Todo esse universo era muito meu.

Podia ser mais fácil e confortável? Podia. Mas se fosse, não seria Flamengo. Se fosse, não seria tão grande, nem o time, nem a torcida, nem a paixão. Eu não quero assistir ao jogo sentada. A dor nas pernas, o suor, tudo isso faz parte. E é apenas uma parte do que posso oferecer pro Flamengo, além do meu apoio, do meu grito, que fazem com que, unidos com o dos outros, transformem um time em algo muito maior. E tudo isso, sem  Flamengo ter precisado pisar em campo. É inexplicável.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Situações da vida mundana

Pra não perder o costume de postar toda semana alguma coisa, resolvi compartilhar o e-mail que recebi de um amigo. Essa semana foi super corrida e não consegui escrever nada, mas quando o Fofinho me mandou esse e-mail, não pensei duas vezes, vale eu abrir esse espaço para ele.
Tudo isso apenas pelo fato de ele ter me visto (era eu mesma) no ponto de ônibus.

"Lena, ontem eu vivi uma situação mto constrangedora para mim com relação a vc...

Eu tenho astigmatismo e enxergo mto mal de noite. Ontem, lá pras 22h, estava andando na Pinheiro Machado e te vejo parada no ponto de onibus (ou pelo menos achei que era vc), ai acelerei o passo pra ir falar contigo. Na hora que eu estava bem perto já, com o sorriso prestes a engrenar no meu rosto, você estende o braço, fazendo sinal para o ônibus. Eu penso: "Fudeu, se eu falar com ela agora vai ficar uma situação escrota pq:
- Nós somos amigos e deveríamos parar para nos falar, se ela fizer isso, ela perde o - já raro - 584
- Se ela me der um tchau e pegar o ônibus, vai ficar aquele lance de: pow, prefiriu pegar o ônibus a falar comigo....

Então, desacelerei o passo para você não me ver, o problema é que o ônibus parou antes do ponto e você começou a andar na minha direção para pega-lo. Nesta altura, eu já estava muito perto de você e completamente envolvido na situação de que você não deveria me ver. Comecei a andar pro lado mas haviam umas grades. Fiquei nervoso, parei e FODA-SE no meio da rua, encostado na grade, de costas pra vc, até vc pegar o ônibus e ele ir embora....

Terrível neh? Depois fiquei me sentindo meio esquisito por ter feito tanto estardalhaço disso...."

Detalhe: O Fofinho tem quase dois metros de altura, é bastante grande (sendo eufemista), e eu realmente não o vi! Achei sensacional essa situação que ele passou e os momentos de tensão a troco de NADA, mas não o julgo por isso. Às vezes a gente passa por umas situações que criamos e depois ficamos pensando o quão ridículos somos por ter feito isso ou aquilo. Por exemplo, quando você não quer falar com alguém e finge que está dormindo no ônibus, ou finge que está falando no celular (torcendo pra ele não tocar no seu ouvido e te deixar surda e desmascarar a farsa, já pensando em como será sua atuação caso você precise dizer "ué, caiu?"). 

Tenho uma amiga que não sabe como agir na obrigação de conversar com alguém que não tem intimidade ou que simplesmente não queria estar falando mesmo, aí acaba soltando um "poxa, bom te ver!" e depois pensa "que frase foi essa?", e encontra com seu ex chefe, e no nervosismo de estar sem graça e com sorriso amarelo, toca no rosto dele e diz "tá bonito!", para depois de matar seus amigos de rir, ficar se questionando o porquê de ter feito aquilo. 

Viu como esses impulsos ridículos rendem histórias legais? (ou não, mas servem para, pelo menos, zoar os amigos).


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A justiceira

Sempre digo que Deus acertou em me fazer mulher e pequena. Porque se eu fosse homem e forte, estaria preso ou morto.

A primeira vez que percebi isso foi quando fui pela primeira vez no Maracanã ver o jogo do Mengão. Foi em 2003 (PAUSA: meus pais não gostam de futebol, não tenho irmão mais velho), quando fui assistir Flamengo e Santos, pelo Brasileiro, com meus amigos-irmãos Doca e Rafinha. Na ocasião, estreei pé-frio, tomamos de 2x0. No momento em que vi aquela torcida ínfima do santos saltitando num canto espremido do estádio (santistas me xingando em 3,2,1...), minha vontade era de ir lá e quebrar todo mundo. Não me julguem, existem sentimentos que são inexplicáveis, talvez se eu fosse homem e forte, não faria absolutamente nada, mas a vontade naquele momento era de ser homem e forte e ir lá bater em geral.

Depois desse dia comecei a pensar sobre isso, como existem coisas revoltantes, que dão vontade de sair quebrando tudo, fazendo com que as pessoas sofram mesmo, sabe? Nessas horas, podia ter um dia só, o dia da justiça, sei lá, que a gente se transformasse num justiceiro e tivesse carta branca para qualquer reação descontrolada. Digo reação e não ação, pois não seria nada gratuito, sempre (ou quase) por motivos justos, outras vezes nem tanto.

Exemplo: final de semana passado fui pra praia de carro com a família. Maldita ideia. Depois de quase 40 minutos atrás de vaga, o ódio toma conta do nosso ser. Aí você vê aquele carro ocupando duas vagas, onde você poderia estacionar. O justiceiro sairia do carro arranhando a porra toda! Furava pneu, quebrava vidro, olha que lindo! Ou então quando vem outro ser maldito e motorizado e pega a vaga na sua frente. Maluco, o Justiceiro pega a bazuca e mata mesmo!! Ah, e ainda por cima é proibido estacionar na Lagoa! CACETAA, ninguém anda naquele pedaço do meio, por que não pode parar lá???? Vontade de arrancar as placas de proibido no dente, e depois jogar dentro da casa de quem tem piscina e não sabe o quão estressante é procurar vaga no calor!

O Justiceiro seria útil também com furadores de fila, pessoas que fingem que dormem no metrô pra não ceder lugar pra idosos, caixas e vendedores que nos atendem mal, bandas que usam cabelo estranho e calça colorida (emos me xingando em 3,2,1...), isso sem falar nos filhos do demo que maltratam os animais e merecem sofrer muito antes de morrer podre.

Ah, não posso esquecer que o justiceiro ia invadir as sedes das companhias telefônicas (todas, sem exceção) e bater muito em todo mundo (me admira ninguém nunca ter feito isso de verdade)! Na galera que atende e desliga o telefone na nossa cara, e nos chefes deles que fazem do Brasil o pior serviço do mundo e não fazem nada pra consertar isso. E explodia o congresso também, mas antes tirava de lá o pessoal que serve café, faz faxina e outros serviços honestos com estes. Fim.

Tô bem leve agora.