sábado, 14 de maio de 2011

"Tudo não pode nada"


Pode não fazer muito sentido, mas quanto mais se ampliam os direitos das pessoas, menos limites elas têm. Explico: hoje as crianças são, sim, muito mais mal educadas e desobedientes do que antigamente. Por quê? Porque ninguém pode colocar limites. Colocaram as crianças numa “cápsula” onde todas viraram intocáveis. Os pais não podem colocar de castigo, a escola não pode repreender, tudo fere os direitos, traumatiza, e ficou mais fácil deixar passar do que tentar consertar.

Eu estudei no CAp/UFRJ, uma escola pública (que eu amo mais que tudo, por sinal), pequena, e que justamente por isso todo mundo se conhecia por nome. Lembro de algumas situações que se ocorressem hoje, seriam caso de tema debatido no Fantástico. Uma vez, eu e meus amigos levamos confete para a aula, pra jogar pra cima quando tocasse o último sinal (excelente idéia, diga-se de passagem). Quando deu 12h40 e o sinal tocou, foi aquela festa! Confete na sala inteira! Que durou cinco minutos. A professora avisou na portaria, e em um minuto a coordenadora chegou na porta e falou: “vai ficar todo mundo limpando a sala depois da aula”. Ok. Fomos até a despensa, pegamos as vassouras, varremos tudo, depois guardamos o material e fomos pra casa. Agora me diz, imagina se isso fosse hoje? Era motivo para matéria no jornal relatando o abuso da escola, demissões, discussões sobre o trabalho infantil...

Outra vez três meninos da minha sala, todos com uns onze, doze anos, picharam o banheiro da escola. A coordenação descobriu, avisou aos pais, comprou tinta e eles ficaram de tarde pintando o banheiro. Um deles, inclusive, subiu no vaso sanitário para alcançar no teto, caiu e quebrou o vaso. Machucou um pouco, mas acharam mais graça que dor. Se fosse hoje, o CAp estaria fechado, com certeza.

Eu aprendi o que era vandalismo quando quebrei a maquete de uma menina com dois amigos na terceira série. Achamos que não teria problema, e quebramos o isopor todinho. No dia seguinte, entra a moça do SOE na sala perguntando quem tinha feito aquilo. Levantamos a mão, levamos bronca (aí entendemos que tínhamos feito algo errado), chamaram nossos pais, e tivemos que chegar no colégio mais cedo pra encontrar a menina e pedir desculpas pessoalmente. No CAp, não tinha nem espaço para aquele tipo de pai que passa a mão na cabeça do filho, que vive da frase “meu bebê não fez isso” e culpa a escola pelos erros naturais que toda criança comete.

Por essas e outras que eu acho que o mundo está cada vez pior, pelo simples motivo de não poder haver repreensão – no sentido de educar. Minha irmã volta e meia escrevia na parede e no sofá. Quando eu olhava, estava lá a Laura, pequenininha, com aqueles cachinhos, chorando, esfregando a parede com sabão (no início eu ficava com pena, depois achava graça, como boa irmã mais velha). Se sujou, limpa. Pronto, não vai fazer de novo. Também não vai traumatizar a criança. Acho que falta aos pequenos aprender a ouvir "não". Foi de tanto ouvir não (provavelmente devido a quantidade de besteira que fazia), que a Laura aos quatro anos soltou a pérola que intitula esse texto.

Quando as crianças perceberam que podem fazer o que quiserem, que o máximo que vai acontecer vai ser ouvir um sermão de três minutos, elas realmente perderam o limite. Não sou a dona da verdade, mas desde que resolveram ensinar os pais a cuidar dos filhos, eles têm crescido cada vez piores.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu sofro bullying, tu sofres bullying, ele sofre...


Eu sempre fui pequena. Bem pequena. Com sete anos, meus dentes da frente eram tão pra fora que eu não conseguia fechar a boca. De quebra, o brinquedo (mais conhecido como ‘filho’) que me acompanhou (e acompanha) a vida toda era um coelho. Não preciso nem dizer que no colégio, por muito tempo meu apelido foi Mônica. Eu só não era gorducha. Agora que deram um nome, posso dizer que sofri bullying. Eu e todos os meus amigos do colégio. Eu e todas as crianças do mundo, na verdade. A frase mais correta que ouvi é a que quem sobrevive à escola, sobrevive a qualquer coisa. Criança é malvada por natureza e fala as verdades na cara, muitas vezes sem saber que está magoando. Adora dar apelido, zombar dos amigos, e isso não é característico dos grandões não, é de todos.

Não estou aqui pra falar que o bullying deve ser aceito (pelo amor de Deus!), nem vou falar de casos extremos que todos sabemos que existem e são tristes e horríveis demais. Quero falar dessa maldição que agora ganhou um nome, se popularizou e se tornou mais insuportável do que era. Eu acho muito legal que as pessoas falem sobre isso, que consigam expor seu problema e resolvê-lo, mas o bullying sempre aconteceu e me incomoda o fato de virar justificativa pra tudo. Um ser maluco entra na escola e mata crianças aleatoriamente, e dizem que foi porque ele sofreu bullying. Desculpa, mas bullying todo mundo sofre, e nem todo mundo sai surtado atirando em inocentes. Lógico que existem casos e casos, mas de modo geral, usar essa nova expressão como explicação pra maluquice humana me soa simplista demais.

O grande problema não é o bullying, e sim a forma que respondem a ele. Se a criança sofre bullying calada, realmente é um problema. Mas se fala para os pais ou para escola, grande parte do problema está resolvido, pois eles que irão tomar a atitude mais sensata e que efetivamente soluciona a questão. No meu caso, eu não podia crescer, mas coloquei aparelho. Também não podia dar porrada em ninguém, então uma boa decisão foi reclamar pro meu pai, que avisou ao Adílson (era o inspetor que fiscalizava a gente no CAp), um negão com cara de malvado que entrou na sala e mandou alto: “se alguém chamar a Leninha de Mônica de novo, vai se ver comigo!”. Problema resolvido.

Lembro de quantas vezes o SOE e a coordenação foram na sala pedir pra gente parar de xingar um, de dar apelido pro outro, pra não excluir fulaninho, sempre na base da conversa e da explicação. E criança entende! Eu sempre me sentia a pior das criaturas quando me faziam enxergar que eu estava fazendo mal pra alguém. E nenhuma das crianças ao meu redor cresceu atordoada, virou adulto doente, nem matou pessoas, e eu lembro de apelidos e brincadeiras maldosas com quase todos. Ou seja, os pais e a escola precisam estar  sempre presentes e atentos sim, mas quem sou eu pra "ensinar" isso, certo?

Acho que o termo “bullying” devia ser usado somente pra casos extremos, como os que infelizmente sabemos que acontecem. Nos pouparia, pelo menos, de ouvir absurdos como políticos dizendo que sofrem bullying da imprensa. Se bem que nesse último caso, acho o bullying um tanto quanto necessário.